Os termos “acusado” e “confissão”, obsessivamente repetidos pelo sr. fedeli, denotam apenas o sentido de teatrinho inquisitorial que ele quer dar a esta polêmica, atribuindo a mim o papel de réu e a ele próprio o de inquisidor e defensor fidei.
Mediante esse curioso giro estilístico, ele transporta o leitor, por instantes, à atmosfera de um tribunal do Santo Ofício, onde testemunham o drama judicial do qual o réu sairá condenado não somente à danação eterna mas também à penalidade temporal da fogueira.
Mas essa atmosfera é, evidentemente, fictícia. Nem o sr. Fedeli tem o poder de condenar ou salvar quem quer que seja, nem eu estou em julgamento. A sentença a ser lavrada no final da encenação não será assinada senão pelo círculo de discípulos do sr. Fedeli, e nenhuma penalidade temporal ou celeste me será imposta exceto na imaginação dessas pessoas, o que não é decerto uma perspectiva especialmente atemorizante.
Não existindo nem neste mundo nem perante o Altíssimo, o tribunal ante o qual o sr. Fedeli me acusa só pode adquirir alguma realidade mediante um certo esforço de imaginação dos seus leitores, e é com a finalidade de secundá-los nesse esforço que ele emprega reiteradamente aquelas figuras de linguagem, emprestadas do jargão tribunalício.
É evidente que um autor que pretenda investigar a verdade não começa jamais por transportar seus leitores a uma situação de discurso tão distante da situação real, nem muito menos por dar a esse simulacro, mediante truques de estilo, uma espécie de “segunda realidade”, como diria Robert Musil.
Também é certo que essa camuflagem geral da situação de discurso não poderia ter a mínima eficácia se, nos detalhes da discussão empreendida, não se sustentasse numa infinidade de falseamentos menores, indefinidamente variados na técnica e no tom, mas, no conteúdo, repetitivos como cacoetes, cujo efeito acumulado produz, no fim, uma falsa impressão de verossimilhança.
Desses cacoetes, destaco apenas um. Esse traço surpreendente do estilo fedélico de escrever é sua tendência compulsiva de trocar os sujeitos das minhas frases. Digo, por exemplo, que com tal ou qual argumento ele “cortou seu próprio pescoço” – e ele entende que eu estou ameaçando cortar o seu pescoço. Digo que seus alunos estão assustados e perplexos – e ele entende que o estou acusando, a ele, de assustar os meusalunos.
Com a mesma freqüência com que troca o sujeito gramatical das frases, ele troca também o sujeito lógico das relações, como se viu nos exemplos acima.
Esses procedimentos lingüísticos anormais denotam aquilo que em psiquiatria se denomina “delírio de interpretação”, um sintoma que, se não comprova doença mental, constitui forte indício daquela deformidade de consciência que se conhece como sociopatia, e que é a marca inconfundível dos líderes pseudo-religiosos milenaristas, dos falsos profetas e dos revolucionários gnósticos.
Nenhum homem inspirado pelo amor Dei jamais sairia apregoando acusações de heresia com a pressa indecente e o apetite de escândalo do sr. Fedeli. A própria Inquisição jamais montava um processo público, mesmo contra algum herético notório, sem antes enviar um representante qualificado para conversar longamente com o suspeito, em privado, seja para certificar-se de suas intenções, seja para demovê-lo de suas convicções, se consideradas errôneas. O sr. Fedeli, em vez disso, mantém-se a uma protegida distância, usando seus discípulos jovens e imaturos como espiões para ciscar pedaços de conversas, enquanto ele, na obscuridade da sua toca de serpente, prepara o bote.
Não, nada disso pode ser inspirado pelo amor a Deus. É preciso ser totalmente desprovido de discernimento espiritual para não perceber que, desde os tempos em que conspirava para arrebatar a liderança da TFP ao falecido Plínio Correia de Oliveira, o sr. Fedeli é movido por uma única paixão: asuperbia, a libido dominandi de um chefe de seita.
De fato não preciso responder-lhe mais nada, Orlando Fedeli, exceto que você é um farsante, um santarrão, um aproveitador da boa fé de seus discípulos e, em toda a linha, uma mentalidade perversa de sectário.
Seu intuito declarado de destruir uma reputação e os meios desonestos que põe em ação para esse fim não apenas são indignos de um homem da Igreja mas estão abaixo até do que a moral laica permite a um intelectual mundano.
Olavo de Carvalho
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