Ex-aluno: Orlando Fedeli e a Montfor são sedevacantitas


Tradicionalismo anti-Vaticano II ou sedevacantismo material?

ALESSANDRO LIMA

Recentemente foi publicado no site Montfort um interessante trabalho do Pe. R. P. Juan Carlos Ceriani da FSSPX (1) sobre as dificuldades que as idéias sedevacantistas apresentam para que se possa afirmar que a Sé de Pedro está vacante, isto é, vaga desde o reinado do Papa Pio XII. A tradução publicada pela Montfort parece ter sido feita a partir do artigo disponível no Stats Veritas (2).

Antes da referida publicação, Orlando Fedeli apresentou outro trabalho (3) tratando o mesmo tema, porém abordando-o não sob o aspecto doutrinário-canônico, mas histórico.

O que terá feito o presidente da Associação Cultural Montfort deixado de escrever exclusivamente sobre a “missa maçônica de Mons. Buguini” e o “Concílio Maçônico” do Vaticano II? Com efeito, desde 2004 só se vê artigos da Montfort sobre estes assuntos; nada mais sobre o Espiritismo, Protestantismo, Cismáticos Orientais ou Ateus. E então? O que terá acontecido? Por que dois artigos tratando o tema do Sedevacantismo em tão pouco tempo de um para o outro, após um longo período onde se escreveu contra o Concílio do Vaticano II e a Missa Nova?

Pistas deste motivo Orlando Fedeli nos dá na própria apresentação que escreveu para publicar o texto do Pe. Ceriani em seu sítio: “Queira Deus abençoar este ensaio, confirmando os fiéis, esclarecendo os que estão em dúvida ou em tentação, fazendo voltar à posição correta os que, por um motivo qualquer, se deixaram, um momento, fascinar por uma tentação terrível nesta hora de trevas” (Ibidem).

Ora, para o Fedeli a única posição correta nestes tempos de crise é a sua (FSSPX, TFP e outros grupos semelhantes estariam todos errados). Logo, ele só pode estar referindo-se aos membros dissidentes de sua Montfort ou pessoas que colaboravam com ela. Ainda, o texto em seu contexto deixa claro que Fedeli refere-se a pessoas que aderiram ao erro do Sedevacantismo. Com efeito, desde que começamos (4) a mostrar que um tradicionalista anti-Vaticano II era nada mais e nada menos que alguém à beira do Sedevacantismo, muitos “alunos” de Orlando Fedeli deixaram a Montfort e uniram-se a grupos sedevacantistas.

Naquela oportunidade quando procuramos mostrar que as idéias dos tradicionalistas anti-Vaticano II levadas às suas últimas conseqüências endereçavam ao sedevacantismo, não queríamos, obviamente, que as pessoas que nutrissem tais idéias se tornassem sedevacantistas, mas que repensassem com prudência sua posição já que a possibilidade de abraçarem um erro grave seria um alarme de que algo não estava certo. Porém, infelizmente, estas pessoas saíram da Montfort e aderiram ao Sedevacantismo. Este fato nos diz muito sobre o perigo das idéias defendidas por aqueles que atacam sem qualquer amor filial à Igreja o Concílio Vaticano II e a Santa Missa de Paulo VI, como também nos diz muito sobre o tipo de gênio pouco prudente e muito precipitado de quem adere a elas.

Para a nossa não surpresa, estes neófitos são acompanhados pelo Felipe Coelho, o primeiro “aluno” de Orlando Fedeli a deixar a Montfort e abraçar o Sedevacantismo. Foi por causa de um artigo seu (5) que começaram os embates entre o Veritatis Splendor e a Montfort. Estas são as pérolas geradas pela Associação Cultural presidida e orientada por Orlando Fedeli. Com efeito, a Montfort tem se mostrado um verdadeiro centro preparatório para o descaminho de almas: ora para a FSSPX, ora para a Capela de D. Lourenço, ora para o Sedevacantismo, ora quando não perdem a fé. Esse é o “belíssimo trabalho” que a Montfort tem prestado em nome da Tradição da Igreja; sem contar é claro com o triste episódio que terminou no fim das atividades do Instituto do Bom Pastor (IBP) no Brasil (6).

Ensaio do Pe. Ceriani mostra mais do que alguns querem ver

Reconhecemos o valor do trabalho do Pe. Ceriani quando ele apresenta o problema jurídico-doutrinário do Sedevacantismo, partindo da premissa que a eleição do Pontífice Romano foi válida. Porém, ele não resolve (infelizmente) o principal argumento dos sedevacantistas: que os últimos Papas não seriam Papas porque foram hereges antes de subir ao trono de Pedro, o que tornaria inválidas suas eleições. É o próprio Pe. Ceriani que o admite: “Não consideramos aqui a hipótese daqueles que se baseiam na Bula de Paulo IV “Cum ex Apostolatus Officio” do ano 1559, parágrafo 6 […], e conforme a qual sustentam que João XXIII, Paulo VI e João Paulo I e II jamais foram Papas legítimos por haver incorrido antes de sua eleição ao Pontificado em heresia” (1). Por isso, ele não é suficiente para reparar o mal causado àqueles que aderiram às idéias sedevacantistas, movidos primeiramente pelas idéias da própria Fraternidade.

Depois de explanar sobre o que pensamos ser a motivação das duas últimas publicações na Montfort sobre o Sedevacantismo (que é fazer “voltar à posição correta [pelo menos para Fedeli] os que, por um motivo qualquer, se deixaram, um momento, fascinar por uma tentação terrível nesta hora de treva”), cabe-nos agora, para o bem das almas, mostrar que o interessante ensaio do Pe. Ceriani não serve para justificar a posição tradicionalista anti-Vaticano II.

Para isto, não iremos abordar a questão de possibilidade de erro no Magistério do Concílio, nem se é justo ou não romper com o religioso obséquio, e outras questões complexas e conexas que pretendemos abordar detalhadamente em trabalhos futuros. Porém, utilizaremos de argumentos co-relatos para defender a nossa posição frente ao Concílio. Desta forma, pretendemos tão somente mais uma vez mostrar o viés sedevacantista do tradicionalistmo anti-Vaticano II, alertando para o fato de que uma posição ortodoxa jamais pode levar quem quer que seja ao erro. Para mostrar isso, usaremos o próprio ensaio do Pe. Ceriani.

A tendência sedevacantista na posição adotada pela Fraternidade frente à crise na Igreja

Logo no início de seu artigo, Pe. Ceriani da FSSPX já demonstra as características sedevacantistas de sua posição jurídico-doutrinária:

“Temos a impressão de que muitos dos que são arrastados por essa opinião [do Sedevacantismo] aderem a ela de modo imprudente, como uma maneira particular de expressar o sentimento comum de oposição à corrente modernista que impera em Roma, porém sem fundamentos suficientes à base de conclusões não devidamente justificadas em sólidas posições teológicas” (1, grifos meus).

Não é novidade que a FSSPX crê que a Sé Romana não guarda mais a Fé Católica de sempre, mas que estaria imbuída do espírito e doutrinas modernistas. Ora, se isto é como se diz, então não resta dúvida que as promessas de Cristo à Sua Igreja falharam se consideramos que os Pontífices depois de Pio XII como legítimos Papas; ou o jeito é alegar que não há Papa na Igreja.

As próprias palavras de D. Lefebvre reproduzidas pelo Pe. Ceriani mostram que tal conclusão não é forçosa, e que infelizmente muitos tradicionalistas anti-Vaticano II chegaram a ela:

“Atas do Capítulo Geral: Extratos dos Princípios e Diretivas de Ação Pastoral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, na situação atual da Igreja. (Publicados na Revista Roma, N° 78) – Vossa resistência vos opõe ao próprio Papa, e vos põe numa grave desobediência.

(…)

A corrupção das idéias na Cúria Romana é tal, que alguns de seus membros se arrogam direitos ilegítimos, especialmente a secretaria de Estado. Roma está invadida pelos modernistas. Ante esse estado de coisas, do qual dificilmente possam fazer-se uma idéia exata aqueles que não freqüentaram a Cúria Romana, os defensores da Tradição se dividem. Uns dizem: os atos de Roma, assinados ou levados a cabo pelo Papa, são tão maus que o Papa não pode ser um Papa legítimo, é um intruso. Portanto, não há Papa, a Sede está vacante” (D. Marcel Lefebvre 09/1982 apud CERIANI 2008, grifos meus).

“Encontramo-nos verdadeiramente diante de um dilema gravíssimo, que creio não se colocou jamais na Igreja: que quem está sentado na Sé de Pedro participe em cultos de falsos deuses; creio que isso não aconteceu jamais em toda a história da Igreja.

Que conclusão deveremos talvez tirar dentro de alguns meses diante desses atos repetidos de comunicação com falsos cultos?

Não sei.

Pergunto-me. Porém, é possível que estejamos na obrigação de crer que esse Papa não é Papa. Não quero dizê-lo ainda de uma maneira solene e formal, porém parece, sim, à primeira vista, que é impossível que um Papa seja herege pública e formalmente” (D. Marcel Lefebvre na Festa da Páscoa em 03/86 apud CERIANI 2008, grifos meus).

A posição semi-sedevacantista de D. Lefebvre é clara na antologia preparada pelo Pe. Ceriani. Suas palavras mostram claramente que suas idéias em relação ao Vaticano II e à Missa Nova, aproximam seus adeptos da tese sedevacantista, quando não a colocam dentro dela:

“Àqueles sacerdotes que não seguem as diretivas que lhes demos, lhes disse que rompem com o espírito da Fraternidade, que conduzem os fiéis que lhes confiamos a uma posição que não é a nossa, que se há dificuldades nas comunidades, elas não provêm da atitude que nós temos, mas da atitude que eles têm e que não corresponde à da Fraternidade, mas que é em definitivo uma falta de fidelidade e de lealdade.” (D. Marcel Lefebvre em 25/10/80 apud CERIANI 2008, grifos meus).

Há de se notar que estas palavras de D. Lefebvre são de 1980. Os trechos que já reproduzimos antes deste são posteriores, 1982 e 1986 respectivamente. Ora, a analogia entre os três trechos mostra claramente que com o passar do tempo D. Lefebvre já não considerava tão irreal a tese sedevacantista (“Porém, é possível que estejamos na obrigação de crer que esse Papa não é Papa”). Porém, D. Lefebvre, Bispo cujas qualidades e virtudes não podemos negar, cujo luta pela permanência do Rito de S. Pio V só merecem nossos aplausos, procurou sempre uma posição mais prudente e não chegou a aderir formalmente ao Sedevacantismo. Deveria ter sido ainda mais prudente e ter demonstrado maior amor filial à Santa Igreja e não ter tomado a decisão quase pecaminosa de romper com o religioso obséquio exigido pela Igreja. Sobre isso trataremos mais adiante.

Um outro trecho escolhido pelo Pe. Ceriani é digno de nota, vamos a ele:

“Afortunadamente a Fraternidade não está sozinha. Com os dominicanos, as dominicanas, os capuchinhos, etc., ela continua a Igreja. Não dizemos, como pretendem fazer-nos dizer, que não há mais senão a Fraternidade. Estamos com todos aqueles que querem continuar a Igreja Católica conforme ao que os Papas ensinaram sempre durante vinte séculos até o Vaticano II. A Fraternidade não é um partido, nem uma seita aferrada a um folclore. Não se trata disso. A situação é muito mais grave. Não é somente a liturgia o que queremos defender. Os problemas de fé são ainda mais importantes […]” (D. Marcel LefebvreConferência aos seminaristas de Flavigny, publicada por Fideliter N°- 68 em 12/1988 apud CERIANI 2008, grifos meus).

D. Lefebvre toma o cuidado em explicar que no tempo atual a Igreja Católica não é somente a Fraternidade. Porém, afirma que o Catolicismo Verdadeiro só nela se encontra. Roma, como sempre diz a Fraternidade estaria imbuída, dominada, contaminada de heresias e modernismo. Ora, esta tese foi condenada pelo Papa Pio VI referindo-se ao Sínodo de Pistóia:

“A proposição que afirma: ‘Nestes últimos séculos desencadeou-se um escurecimento total (sparsam esse generalem obscurationem) sobre as verdades de maior gravidade e importância relativas à religião e que são o fundamento da Fé e da Moral da doutrina de Jesus Cristo’ – é herética” (7).

Ora, se segundo o Magistério Infalível, a Santa Igreja jamais poderá deixar-se dominar pelas trevas do erro, e se a Santa Sé com os Bispos do mundo inteiro se deixaram imbuir por tal escuridão, logo não é de se espantar que alguém caia no Sedevacantismo. Com efeito, mais adiante, D. Lefebvre mais uma vez reconhece que a FSSPX poderia ter adotado tal postura:

“[…] Poderíamos ter adotado muitas atitudes, e especialmente aquela de uma oposição radical: o Papa admite idéias liberais e modernistas, logo ele é herege, portanto não é mais Papa. É o sede vacantismo. Terminou, não se considera mais Roma. Os cardeais eleitos pelo Papa não são cardeais; todas as decisões tomadas são nulas […]” (D. Marcel LefebvreConferência aos seminaristas de Flavigny, publicada por Fideliter N°- 68 em 12/1988 apud CERIANI 2008, grifos meus).

Em tempo lembramos ainda que a FSSPX não reconhece o novo Código de Direito Canônico promulgado pelo Papa João Paulo II através da Constituição Apostólica Sacrae Disciplinae Legesde 25 de Janeiro de 1983, por julgá-lo ilegítimo e imbuído de Modernismo; como se a Assistência Divina à Igreja tivesse cessado. Esta postura contraria os ensinamentos do Magistério sobre as leis eclesiásticas. O Papa Gregório XVI sintetizou muito bem tais ensinamentos:

“6. Reprovável seria, na verdade, e muito alheio à veneração com que se devem acolher as leis da Igreja, condenar, somente por néscio capricho de opinião, a doutrina que foi por ela sancionado, na qual estão contidas a administração das coisas sagradas, a regra dos costumes e dos direitos da Igreja, a ordem e a razão dos seus ministros, ou então acoimá-la de oposicionista a certos princípios de direito natural, julgando-a deficiente e imperfeita, ou ainda sujeitando-a à autoridade civil.

Constando, com efeito, como reza o testemunho dos Padres do Concílio de Trento (Sess. 13, dec. de Eucharistia in procem.), que a Igreja recebeu sua doutrina de Jesus Cristo e dos seus Apóstolos, e que o Espírito Santo a está continuamente assistindo, ensinando-lhe toda a verdade, é por demais absurdo e altamente injurioso dizer que se faz necessária uma certa restauração ou regeneração, para fazê-la voltar à sua primitiva incolumidade, dando-lhe novo vigor, como se fosse de crer que a Igreja é passível de defeito, ignorância ou outra qualquer das imperfeições humanas; com tudo isto pretendem os ímpios que, constituída de novo a Igreja sobre fundamentos de instituição humana, venha a dar-se o que São Cipriano tanto detestou: que a Igreja, coisa divina, se torne coisa humana (Ep. 52, edit. Baluz.). Pensem, pois, os que tal supõem, que somente ao Romano Pontífice como atesta São Leão, tem sido confiada a constituição dos cânones; e que somente a ele, que não a outro, compete julgar dos antigos decretos dos cânones, medir os preceitos dos seus antecessores para moderar, após diligente consideração, aquelas coisas, cuja modificação é exigida pela necessidade dos tempos (Ep. ad. episc. Lucaniae)” (8, grifos meus).

Como se vê, não adianta a Fraternidade condenar o Sedevacantismo se acaba agindo como se o Papa não fosse legítimo Sucessor de São Pedro.

A nossa posição frente à crise

Aos que permaneceram em plena comunhão com a Sé de Roma e conseqüentemente aceitaram o Vaticano II, os tradicionalistas anti-Vaticano II imputam uma obediência cega. Apesar de realmente ser esta a posição de alguns, chamados comumente de conservadores ou neoconservadores (9), esta não é a posição de vários grupos tradicionalistas que voltaram à plena comunhão com a Santa Sé (Fraternidade Sacerdotal São Pedro, Administração Apostólica São João Maria Vianney, Instituto do Bom Pastor etc) e também não é a posição do Apostolado Veritatis Splendor. Com efeito, estes tradicionalistas num primeiro momento resistiram ao Papa e ao Vaticano II, depois tendo refletido sobre todo o caso, retornaram à Comunhão com a Santa Sé. Dizer simplesmente que estes grupos traíram a “causa tradicionalista” é fazer um juízo muito simplista, se não desonesto.

Toda recepção de um Concílio Ecumênico é problemática, pois nem sempre se dispõe de todos os elementos que ajudem a compreender esta ou aquela proposição. Sobre isso escrevemos diversas vezes (10) e seria redundante aqui repeti-lo. E o Vaticano II por ter promulgado muitíssimos documentos, utilizado termos não muito comuns ao que a Igreja costumava usar, sintetizou ensinamentos dispersos no Magistério autêntico dos Papas Leão III e Pio XII, ensinado coisas novas, ter sido sistematicamente utilizado como pretexto às práticas liberais e anti-católicas, especialmente na prática da Sagrada Liturgia e no ensino da Sagrada Teologia, não torna fácil a tarefa de encontrar o seu lugar no coração e na vida da Igreja.

Ora, a mesma prudência que D. Lefebvre utilizou para não aderir ao Sedevacantismo, deveria tê-la utilizado ao criticar os documentos do Concílio, como também em sua relação com a Santa Sé. Por isso, em relação a toda problemática que envolve a correta recepção do Vaticano II na Igreja, repetimos as próprias palavras de D. Lefebvre quando tratou do tema sedevacantista:

“Entretanto, em muitos casos na vida estamos obrigados, mais que a seguir uma lógica implacávela compreender que há outros elementos que entram em jogo além da lógica pura dos princípiosExiste a lógica da caridade, da Sabedoria, de um conjunto de circunstâncias que há que levar em conta. Se se aplicasse sempre a lógica integral, se correria o risco de ser muito duro e, em certo modo, injusto, pois não se considerariam suficientemente, nesses casos, as circunstâncias” (D. Marcel Lefebvre em 05/10/1978 apud CERIANI 2008, grifos meus).

A posição do Veritatis Splendor é fazer aquilo que o Papa Bento XVI vem pedindo à toda Igreja: que receba o Vaticano II com amor e esperança (11). Neste sentido temos procurado defender a ortodoxia do Concílio. Com efeito, já o fizemos em diversas oportunidades, e sabemos que ainda há muitos outros pontos a tratar.

Nossa posição não se baseia numa suposta obediência cega, mas naquela que enxerga com os olhos da Fé e é iluminada pelas as luzes da mesma Fé. Para melhor explicitar o fundamento de nossa esperança, concederemos que os ensinamentos do Vaticano II sejam conforme a modalidade do Magistério não-infalível, como dizem seus principais críticos:

“[…] O fato de não ser este ensino [Magistério não-infalível] absolutamente garantido con­tra o erro, não significa que esteja eivado de falsidade. Muita vez pode até ser considerado praticamente infalível, por ex.: a condenação do aborto médico, da esterilização, da inseminação artificial.

A diferença entre os dois tipos — infalível ou não — de Magistério provém da autoridadeem virtude da qual ensina. No primeiro caso, é a autoridade imediata de Deus; a Igreja age apenas como porta-voz, transmite-nos fielmente a palavra reve­lada (2 Cor 5, 20). No segundo, é a autoridade imediata da Igreja, em virtude de seu poder pastoral sobre seus filhos. Sem dúvida, tal poder, a Igreja recebeu-o de Deus, porém a autorida­de divina intervém apenas relativamente, como fonte e guia da autoridade da Igreja.

À primeira doutrinação deve corresponder, de nossa parte, a obediência da fé cristã (2 Cor 10, 5); ao segundo, o assentimento interno, fruto de uma submissão religiosamente filial.

Com efeito, o ensinamento não infalível da Igreja é também assistido pelo Espírito Santo, embora não de maneira absoluta. Muito se enganaria, pois, quem cuidasse que ele nos deixa inteiramente livres de assentir ou de discordar.

Não obrigar sob pena de heresia, está longe de equivaler a não obrigar de todo, conforme ensina o Concílio do Vaticano: “Não bastaria evitar a perversão da heresia, se não fugíssemos ainda diligentemente os erros que dela se aproximam mais ou menos” (cf. Denz.,  n.   1820;   Código  de  Direito  Canônico de 1917, n. 1324;   Pio  XII, Humani Generis, n.  17). Pio X condenou os que pretendiam eximir de qualquer culpa moral quem não levasse em conta as censuras decretadas pelas Congregações romanas (cf. Denz.,  n.  2008;   cf.   1684,   1698,   1722). Cabe à Igreja não só propor a verdade revelada, como ainda mostrar o que — direta ou indiretamente — a ela leva ou dela afasta.

Nem basta acolher este ensinamento com um silêncio respei­toso; impõe-se uma adesão intelectual (cf. Denz. 13502007). Dando-a, nossa piedade filial se curva a Cristo, que conferiu autoridade sobre nós a sua Esposa.

Assim, embora esta modalidade de ensino não esteja garan­tida, de maneira absoluta, contra o erro, sempre acertamos, acei­tando-a com docilidade, porque rendemos homenagem ao Senhor Jesus, nosso Mestre” (12 Pg 293-297, grifos meus).

Como se vê, embora de maneira não absoluta, o Magistério não-infalível goza de assistência do Espírito Santo. Ora, mas como pode ser se é possível que tenha erro? É preciso distinguir entre erro e heresia. O Concílio de Florença no Decreto sobre os Armênios, disse que a entrega dos instrumentos fazia parte da matéria no Sacramento da Ordem (cf. DS 1326). Porém, isso não é verdade; e foi até corrigido pelo Papa Pio XII na Constituição Apostólica Sacramentum Ordinissem fechar a questão com relação a este ensinamento do Concílio Florentino (cf. DS 3858). O fato é que tal ensinamento não contraria qualquer dogma da Igreja, e nem ameaça a fé das pessoas. Por isso, muitos teólogos acreditam que a assistência do Espírito Santo no Magistério não-infalível tem como objetivo evitar doutrinas que sejam perigosas para a fé.

“À primeira vista, parece estranha essa adesão interna a uma doutrina, afinal de contas, passível de reforma. Guarde-se silên­cio: é questão de disciplina [que nem a FSSPX e nem a Montfort observam]; mas, que se dê assentimento verda­deiro, espanta.

Atentemos todavia em que, frequentes vezes, um sábio admi­te, como cientificamente certas, doutrinas que, mais tarde, novas descobertas obrigá-lo-ão a abandonar. Nem essa atitude se lhe afigura incoerente. Com efeito, ao assentir, o sábio subentendia uma condição: “certa — no estado atual da ciência”. De modo semelhante, quando o Santo Ofício ou a Comissão bíblica publi­cam um decreto com sanção pontifícia, devemos admitir-lhe a dou­trina como certa — no estado atual da teologia, ou da exegese católicas. Com o progredir da meditação, é possível que ela apa­reça não apenas certa senão divinamente revelada; possível tam­bém que venha a ser abandonada. Tais possibilidades remotas não tornam o nosso assentimento atual imprudente ou ilógico, porque não é incondicional. E não é incondicional porque a Igreja não propõe toda verdade como de fé.

O “silêncio respeitoso” liga somente a língua e a pena; rom­pê-lo implica malícia da vontade que se não submete [é exatamente o erro que comentem a FSSPX e a Montfort]; a “adesão interna” liga também a inteligência — conquanto não absolutamente;negá-la implica temeridade intelectual. Todavia, como a decisão romana, no caso, não é irreformável, será lícito ao teó­logo ou ao exegeta que encontrassem porventura novos e fortís­simos argumentos, propô-los com a devida reverência. O que já sucedeu, sobretudo em matéria de interpretação bíblica.

[…] Por vezes, não se trata, propriamente, de docilidade, mas an­tes de prudência […]” (Ibidem).

As palavras acima são de uma clareza e precisão incríveis. À luz destes ensinamentos é possível dizer que a Fraternidade e a Montfort agem conforme o amor filial que todos devemos à Santa Igreja Católica? Obviamente não! A forma como expôe ao grande público suas idéias a respeito do Vaticano II, da Missa Nova e dos últimos Papas só traz dissensão e confusão entre os membros da Igreja, além de servir de grande escândalo para os hereges, cismáticos, ateus, pagãos e judeus.

Também ensinou a Congregação Para a Doutrina da Fé, na Instrução Donum Veritatis:

“23. […] Quando, porém, o Magistério, mesmo sem a intenção de emitir um juízo definitivo, ensina uma doutrina, seja para ajudar a uma mais profunda inteligência da Revelação ou daquilo que melhor explicita o conteúdo da Revelação, seja para lembrar a conformidade de uma doutrina com as verdades de Fé, seja enfim para prevenir contra concepções incompatíveis com estas mesmas verdades: então, é exigida uma religiosa submissão da vontade e da inteligência, que não pode ser meramente exterior e disciplinar, mas deve consistir na obediência da Fé e por ela ser estimulada.” (13, grifos meus).

Reconhecemos que há muita dificuldade em discernir se os ensinamentos do Vaticano II estão ou não em continuidade com o Magistério perene da Santa Igreja Católica. Os últimos Papas têm insistido na ortodoxia do Concílio, e colocado até algumas luzes neste sentido. Entretanto, sabemos que há ainda muito terreno ainda a ser aplainado. Porém, se cremos que os últimos Papas (inclusive Bento XVI) são legítimos, não nos resta alternativa em também crer que não faltou à Igreja o auxílio que Cristo lhe prometeu:

“[…]Se o Senhor prometeu, como prometeu, que estaria sempre com a sua Esposa, e que as forças infernais não prevaleceriam contra ela, é absolutamente necessário que seja amparada, por Deus, a fragilidade humana.

Todavia, a Igreja não se limita a conservar e explicar a dou­trina revelada sobre a fé e os costumes. Deve ainda guiar pra­ticamente a seus filhos, nas diversas conjunturas da vida, para que evitem o erro e o mal, abracem a verdade e o bem. Donde a longa série de leis, regulamentos, disposições, preceitos, conse­lhos, de que falamos. Variará o grau de “assistência” do Espírito Santo, segundo o alcance dessas iniciativas.

[…]

Possível é o erro, em compensação, no que se refere a deci­sões menos importantes e gerais. Porém, ainda aqui devemos crer que a “assistência” divina não falta. As diretivas eclesiásticas se­rão acertadas, o mais das vezes. Já aludimos a certa “infalibilida­de global”, entendendo por aí que o governo da Igreja é de tal for­ma dirigido pelo Espírito Santo que, em conjunto, leva ao esta­belecimento do Reino de Deus sobre a terra, em que pesem os muitos enganos ou deficiências pessoais deste ou daquele hierarca.

A crença na “assistência” do Espírito Santo, confere a nossa obediência de fiéis, um caráter religioso. Obedecendo aos pastores, obedecemos ao Espírito que os constitui Bispos, para gover­narem a Igreja de Deus (At 20, 28).

Mas podem errar? — Seja. Em última análise, Deus saberá tirar o bem do mal. De qualquer forma foi Deus servido permitir aquele erro. Se o Superior enganou-se, entrava nos desígnios de Deus que ele se enganasse, pois Deus age sobre os acontecimentos através de instrumentos humanos, logo falíveis. Deus liga a sua ação no mundo, naquele momento dado, à decisão deste superior particular. Logo essa decisão nos traz a vontade de Deus, sempre boa. Daí, a serenidade perfeita do cristão fervoroso, em presença de certas medidas legislativas ou disciplinares, que se lhe afiguram menos acertadas. Quando Pio XI, por exemplo, repudiou os erros da Action française, não fazia uso do carisma da infalibilidade. Nu­merosos franceses, embora julgassem a iniciativa pontifical menos feliz, obedeceram entretanto ao Pai comum, por espírito de fé e docilidade filial. Consolavam-se, pensando que a Providência sa­beria, de qualquer maneira, salvaguardar os interesses supremos da sua pátria.

De pouco valeria, houvesse Cristo confiado a sua Igreja dogma profundo e sublime moral, se ela malograsse na aplicação cotidiana desse dogma e dessa moral; se não conseguisse pratica­mente afastar seus filhos do mal e encaminhá-los ao bem.” (12, pg 306-309, grifos meus).

Em tempo, também ensinou a Congregação para a Doutrina da Fé:

“Além disso, a assistência divina é dada aos sucessores dos Apóstolos, que ensinam em comunhão com o sucessor de Pedro e, de modo especial, é dada ao Romano Pontífice, Pastor de toda a Igreja, quando — embora não declarem uma definição infalível, nem proclamem de modo definitivo [definitive] uma proposição [sententiam] no exercício do seu Magistério ordinário — propõem um ensinamento que leva a um melhor conhecimento da Revelação, em matéria de Fé e de Moral, e normas morais que derivam deste ensinamento.

Por isso, deve-se ter em mente a natureza própria de cada uma das intervenções do Magistério e o modo pelo qual é empenhada sua autoridade, mas também o fato de que todas procedem da mesma Fonte, isto é, de Cristo, que quer que Seu povo caminhe na verdade plena. Pelo mesmo motivo, as decisões do Magistério em matéria de disciplina, embora não sejam garantidas pelo carisma da infalibilidade, não deixam de gozar também da assistência divina e exigem a adesão dos fiéis cristãos” (13, n. 17, grifos meus).

Conclusão

No primeiro tópico deste trabalho mostramos que postura da Fraternidade de D. Lefebvre frente à Crise na Igreja não passa de um sedevacantismo material. Afinal, todo tradicionalista anti-Vaticano II é um sedevacantista incubado prestes a revelar-se. Assim, erro do Sedevacantismo é o perigo real que está à frente de todo aquele que ser arvora por aí em criticar o Concílio sem qualquer amor filial pela Santa Igreja. Em resumo, um tradicionalista anti-Vaticano II é como um protestante: alguém que não vive em coerência com seu pensamento e princípios.

No segundo tópico, procuramos demonstrar que a razão de nossa postura frente à Crise não é fruto de uma obediência cega, mas iluminada pela Fé e que acima de tudo está muito bem alicerçada em fundamentos genuinamente católicos, conforme testificam os textos que aqui reproduzimos. Para aqueles que nos criticam por insistirmos nela, apenas lhes repetimos as seguintes palavras de D. Lefebvre contra os sedevacantistas:

“ […] Pode-se reformar o próprio pensamento. Se se constata que nos equivocamos, não há que duvidar em mudar; não há que teimar num ponto de vista, se se está persuadido de que se cometeu um erro. É a simples lei do bom senso e da fé. O erro deve corrigir-se, quando é advertido. Quando alguém se persuade de que cometeu um erro, deve corrigir-se. Graças a Deus, penso ter julgado de uma maneira tal que devo perseverar nessa forma de pensar, apesar das objeções que me fazem; inclusive se são penosas e provém de nossos amigos e daqueles que foram confrades e que crêem ter o dever de nos atacar pessoalmente em revistas, folhetos, etc. Essas objeções provêm daqueles que poderíamos chamar “ultras”; e crêem ser um dever nos criticar e nos chamar de liberais, porque queremos conservar essa maneira de pensar a respeito desses problemas” (D. Marcel Lefebvre em 25/01/1979 apud CERIANI 2008).

Referências e Notas

(1) CERIANI, R. P. Juan Carlos. Associação Cultural Montfort: MONSENHOR LEFEBVRE E A SÉ ROMANA. Disponível em http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cadernos&subsecao=religiao&artigo=lefevbre-roma. Último acesso em 20/12/2008.

(2) CERIANI, R. P. Juan Carlos. Stat Veritas: POSICION INALTERADA DE MONSEÑOR LEFEBVRE DURANTE 20 AÑOS. Disponível em http://www.statveritas.com.ar/Varios/Lefevbre%20y%20la%20sede%20Romana.htm. Último acesso em 20/12/2008.

(3) FEDELI, Orlando. Associação Cultural Montfort: CONCILIARISMO. Disponível em

http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=concilarismo⟨=bra. Último acesso em 20/12/2008.

(4) CAMPOS, Marcio Antonio. Apostolado Veritatis Splendor: FEDELI CONTRA FEDELI.Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4616. Desde 12/10/2007.

LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: TRADICIONALISTA ANTI-VATICANO II É ALGUÉM QUE NÃO TEM CORAGEM DE SER SEDEVACANTISTA. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4877. Desde 10/03/2008.

LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: TRADICIONALISMO ANTI-VATICANO II: UMA FORMA VELADA DE SEDEVACANTISMO. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4910. Desde 17/03/2008.

(5) COELHO, Felipe. Associação Cultural Montfort: “VANITATIS SPLENDOR”: RAFAEL VITOLA BRODBECK E SEU INSULTO AO I.B.P. Disponível em http://www.montfort.org.br/index.php?secao=home&artigo=novidades&bol=2007011117&lang=bra. Último acesso: o artigo foi retirado do site Montfort.

(6) PERREL, Padre Roch. Apostolado Veritatis Splendor: INSTITUTO BOM PASTOR (IBP) DEIXA O BRASIL. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/5445. Desde 06/08/2008.

(7) PAPA PIO VI, Constituição Auctorem Fidei, Denz-Sho 2601.

(8) PAPA GREGORIO XVI. Apostolado Veritatis Splendor: MIRARI VOS. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/1302. Desde 05/09/1999.

(9) O Pe. Chad Ripperger da FSSP (Fraternidade Sacerdotal São Pedro) em seu trabalho “Conservative vs. Traditional Catholicism” explica que “o termo ‘neoconservador’, por outro lado, refere-se àqueles que são considerados os membros mais conservadores da Igreja. Na maioria das vezes defendem posições ortodoxas, mas não afirmam que seja estritamente necessário religar-se à tradição eclesial. O prefixo “neo” é usado porque eles não são os mesmos conservadores na autoridade dentro da Igreja antes, durante e depois do Concílio Vaticano II. Os conservadores atuais, ou seja, os neoconservadores, são diferentes, pois os conservadores do período anterior buscavam manter as tradições eclesiais que foram perdidas”. O trabalho do Pe. Ripperger está disponível emhttp://www.latinmassmagazine.com/articles/articles_2001_SP_Ripperger.html.

(10) LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: O VATICANO II É O RESPONSÁVEL PELA CRISE ATUAL? Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4647. Desde 05/11/2007.

LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: LEITOR PEDE NOSSA OPINIÃO SOBRE A CRISE NA IGREJA. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/5036. Desde 07/04/2008.

LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: A PARÁBOLA DO SEMEADOR E O CONCÍLIO DO VATICANO II. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4323. Desde 20/06/2007.

(11) GRILLO, Marcos Monteiro. Apostolado Veritatis Splendor: AFINAL, BENTO XVI É FAVORÁVEL OU CONTRÁRIO AO CONCÍLIO VATICANO II? Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/5195. Desde 19/05/2008.

(12) PENIDO, Pe. Dr. Maurílio Teixeira-LeiteO Mistério da Igreja. Petrópolis: Ed. Vozes, 1956.

(13) CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Apostolado Veritatis Splendor: DONUM VERITATIS. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4932. Desde 24/03/2008.

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