Por que “Lutero”?


Não chamamos o Orlando Fedeli de Lutero de maneira gratuita nem com o intuito de ofender os luteranos. Ele se dizia católico mas suas posições distavam disso. Quem conheceu  a ele pode testemunhar que falamos a verdade e nos fundamentamos em doutrinas. As mesmas tomaram luz depois de ter lido o artigo abaixo.

Boa leitura!

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Tradicionalismo anti-vaticano II: o neoprotestantismo

Fonte: VERITATIS

Antes de abordarmos nosso tema propriamente dito, convém esclarecermos alguns pontos. Em primeiro lugar, é importante observar que não pretendemos fazer uma análise da gênese do protestantismo no século XVI, isto é, não faremos aqui um estudo exaustivo das razões históricas, políticas e teológicas que deram causa ao movimento que se convencionou chamar de Reforma Protestante. Também não abordaremos os movimentos, as idéias e os personagens que, dos primórdios da Igreja até o século XVI, poderiam constituir uma espécie de protestantismo avant la lettre. Em outras palavras, reconhecemos que questionamentos à ortodoxia e à autoridade da Igreja Católica sempre existiram, em maior ou menor grau, desde o nascimento da fé cristã, e deverão continuar a existir, não constituindo um fenômeno restrito ao já mencionado século XVI. Não obstante, um exame de todas ou mesmo das principais manifestações de insubordinação à autoridade da Igreja ao longo dos séculos extrapolaria as modestas pretensões deste artigo. Finalmente, é necessário deixar claro que não é nossa intenção analisar todos os casos que poderiam ser incluídos neste fenômeno ao qual decidimos dar o nome de neoprotestantismo. Com relação a esta última observação, convém-nos, para a compreendermos melhor, desenvolver o conceito de neoprotestantismo propriamente dito.

Tendo em vista o objetivo precípuo deste artigo, por neoprotestantismo queremos designar, em linhas gerais, o fenômeno no qual indivíduos (tanto religiosos quanto leigos) dentro da Igreja Católica julgam-se no direito e até no dever de desacatar a autoridade da Santa Sé em nome de um suposto resgate daquilo que julgam ser a “verdadeira fé católica”. Mais especificamente, queremos nos referir àqueles que rejeitam o Concilio Vaticano II considerando-o um “desastre” para a Igreja Católica, uma inaceitável “ruptura” com a Tradição e um inadmissível “desvirtuamento” da sã doutrina católica.

Não é nossa intenção analisar os principais pontos do Vaticano II criticados pelos que aqui chamamos de neoprotestantes. A esse respeito indicamos, ao final do texto, alguns artigos publicados em nosso site. E se não faremos tal analise é porque o principal objetivo da presente reflexão é traçar alguns paralelos entre o fenômeno que ora chamamos de neoprotestantismo e o protestantismo originário (séc. XVI), sendo que tais paralelos nos permitirão compreender melhor o sentido em que usamos o termo “neoprotestantismo”.

Primeiramente, é importante observar que, assim como os protestantes originários, os neoprotestantes agem (ou pelo menos parecem agir) motivados por uma certa noção de dever, como se fossem de alguma forma incumbidos de uma tarefa “irrenunciável”, qual seja, a de reparar os “danos” causados pelo Vaticano II (no caso dos protestantes originários, tal tarefa seria “restaurar” a Igreja bíblica e primitiva). E aqui se deve frisar que, como os protestantes de outrora (e podemos dizer que também como os de hoje), os neoprotestantes são (ou pelo menos aparentam ser, e fazemos essa ressalva porque só Deus pode conhecer o íntimo de cada um de nós) tementes a Deus, têm uma fé e uma piedade profundas, e parecem agir com as melhores intenções. Com isso queremos deixar claro que partimos do pressuposto de que os neoprotestantes agem de boa-fé, e que realmente visam aquilo que entendem ser o melhor para a Igreja e para os fiéis.

Mas, como dizíamos, antigamente os protestantes originários afirmaram que Roma deixara para trás a verdadeira religião, deixara Cristo de lado, tornara-se a “prostituta do Apocalipse”, a “nova Babilônia”; por isso, munidos do dever de restaurar a “verdadeira” Igreja, eles protestaram contra esta “nova Roma-Babilônia” e fundaram suas novíssimas comunidades, onde estaria de volta a verdadeira e primitiva Igreja. Os neoprotestantes fazem, hoje, o mesmo que os protestantes originários: Roma perdeu a Fé, negou a verdadeira religião, deixou Cristo de lado, a Igreja não existe mais em Roma e a religião católica (a despeito do que definiu o Concílio Vaticano I) não permanece mais na Sé Apostólica. Por isso eles, os tradicionalistas anti-Vaticano II ou neoprotestantes – como resolvemos chamá-los neste ensaio – se arrogam o dever, a tarefa heróica, de restaurar a Igreja verdadeira, livrá-la da heresia que nela se instalou, trazer de volta Cristo – exatamente como fizeram os protestantes originários, e hoje vemos os resultados…

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X, nos discursos de seus mais altos chefes, sempre deixou transparecer esta concepção nitidamente protestante.

Dom Marcel Lefebvre, por exemplo, afirmou:

“É evidente que somos nós que guardamos a unidade da fé, que desapareceu da Igreja oficial. […] Onde está a unidade da fé em Roma? Onde está a unidade da fé no mundo? Fomos nós que a guardamos. […] Tudo isso mostra que somos nós que possuímos os sinais da Igreja visível. Se ainda existe uma visibilidade na Igreja hoje em dia, é graças a vós. Estes sinais não se encontram mais nos outros. Não existe mais neles unidade da fé, ora, é precisamente a fé que é a base de toda a visibilidade da Igreja […] É necessário, portanto, que saiamos do meio destes bispos, se não desejamos perder a nossa alma. Mas isso não é suficiente, posto que é em Roma que a heresia se instalou. Se os bispos são heréticos (mesmo sem tomar este termo no sentido e com as conseqüências do direito canônico) não é sem a influência de Roma. Se nós nos distanciamos deste tipo de gente, é com a mesma precaução que se toma para com as pessoas que estão com AIDS. Não queremos nos contaminar. Ora, eles estão com AIDS espiritual, uma doença contagiosa. Se quisermos guardar a saúde, não devemos aproximar-nos deles […]É por isso que nós não podemos nos ligar a Roma.” (in Guarde a Fé, publicação da Fraternidade no Rio Grande do Sul, Brasil, Jun/jul 2002; Apud: RIFAN, D. Fernando.Pedido de Parecer sobre Doutrinas da SSPX, disponível em:http://www.veritatis.com.br/article/5533; acesso em: dezembro de 2008)

Ora, as palavras de Dom Lefebvre, de forma explícita, mostram um sectarismo genuinamente protestante, e aquela concepção de que eles – estes neoprotestantes – são os salvadores da Igreja: Roma está “com AIDS espiritual”, “é em Roma que a heresia se instalou”, foram eles, a Fraternidade, que “guardaram a unidade da fé”, eles “possuem os sinais da Igreja visível”. Para os neoprotestantes a Igreja Romana é novamente – como para os protestantes originários – a “Prostituta do Apocalipse”, a “nova Babilônia”, cheia de heresia, repleta de desprezo à verdadeira religião. Mas os neoprotestantes se eximem de utilizar os mesmo termos que os protestantes originários; não chamam a Igreja Romana de “Prostituta” ou “nova Babilônia”; em lugar disso, chamam-na, como cunhou Dom Lefebvre, de “Roma neo-modernista”: uma nova Roma, uma nova Igreja, onde não mais está a verdadeira religião, mas apenas heresias e Modernismo:

Tanto em seus dogmas como em seu culto, a nova religião esvaziou a nossa religião católica de sua substância […] Esta nova religião não é mais do que uma gnose” (MALLERAIS, D. Tissier de. Discurso das ordenações em Ecône, 27 de junho de 2002; apud idem).

Dom Richard Williamson não esconde:

“Ocorre que a Fraternidade conseguiu guardar o Depósito da Fé; se as próprias autoridades da Igreja de Cristo o perderam, deverão então rondar como mariposas em torno de uma chama” (Carta aos benfeitores, fevereiro de 2001; apud ibidem).

Ora, a Fraternidade guardou o depósito da Fé, ao passo que “as próprias autoridades da Igreja de Cristo o perderam”: tese em frontal contradição com o Concílio Vaticano I, que ensina, seguindo o IV Concílio de Constantinopla:

“Na Sé Apostólica sempre se conservou imaculada a religião católica e santa a doutrina. Por isso, não desejando absolutamente separar-nos desta fé e desta doutrina, […] esperamos merecer perseverar na única comunhão pregada pela Sé Apostólica, na qual está sólida, íntegra e verdadeira a religião cristã” (Const. Dogm. Pastor Aeternus, Dz. 1833).

Não obstante, como demonstrado a partir das palavras de seus próprios líderes, os neoprotestantes – assim como os protestantes originários – a despeito do que foi dogmaticamente definido pelo Concílio Vaticano I, acreditam que Roma perdeu a Fé, que não existe mais incólume a verdadeira religião na Sé Apostólica, e que a eles, aos tradicionalistas anti-Vaticano II e neoprotestantes, cabe protestar contra esta “Roma neo-modernista” e restaurar a verdadeira religião católica, que eles – não a Sé Apostólica – guardam.

Em segundo lugar, à semelhança dos seus antecessores, os neoprotestantes põem em xeque não só a autoridade, mas também a prerrogativa da assistência divina contra o erro no Magistério da Igreja (mormente tendo em vista o Magistério atual), na medida em que, no entender dos neoprotestantes, o Concílio Vaticano II foi efetivamente um erro no qual incorreram nada menos que cinco Papas (João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI), os Bispos do mundo inteiro participantes do referido Concilio, bem como aqueles que, integrantes do Magistério atual da Igreja, procuram manter fidelidade e dar continuidade ao Vaticano II.

Em terceiro lugar, podemos observar que, assim como os protestantes do século XVI adotaram o princípio do livre exameda Escritura Sagrada, no sentido de que todo cristão teria não só o direito como também o dever de examinar individualmente (sem qualquer mediação) a Bíblia, os neoprotestantes julgam-se no direito e no dever de “examinar” (individualmente ou, mais comumente, sob a orientação de um ou mais “gurus”) todas as orientações e determinações oriundas da Santa Sé desde o Vaticano II. Assim, os neoprotestantes aceitam umas coisas e rejeitam outras, recebem bem um documento e rejeitam outro. Um exemplo da aplicação do “livre exame” por parte dos neoprotestantes pôde ser visto por ocasião da publicação do Motu proprio Summorum Pontificum. O referido documento, recebido com entusiasmo no meio neoprotestante em geral (veja um exemplo dessa recepção aqui), foi promulgado pelo mesmo Papa que já se mostrou pública e reiteradamente a favor do Concílio Vaticano, que os neoprotestantes rejeitam (a esse respeito sugerimos a leitura do artigo “Afinal, Bento XVI é favorável ou contrário ao Concílio Vaticano II?“). Mas houve também aqueles que julgaram esdrúxulo e sem nenhum cabimento o Motu Proprio, e outros ainda que o consideram uma “armadilha” (vejam, por exemplo, a seguinte entrevista com Dom Richard Williamson da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X); à semelhança dos protestantes originários, também existem várias “denominações” entre os neoprotestantes, que vão desde um tradicionalismo anti-Vaticano II “moderado” (se é que se pode concebê-lo) até o sedevacantismo radical e a posterior perda da Fé… 

Não se está aqui discutindo aquilo que, vindo da Santa Sé, deve ou não ser tido como infalível. Com efeito, é sabido que não é absolutamente tudo que vem de Roma que deve ser recebido como infalível (alguns discursos ou homilias do Papa, por exemplo, não gozam de tal prerrogativa). Não obstante, não nos parece razoável, nem coerente, dizer “Viva!” ao Papa Bento XVI quando isso é conveniente, mas não lhe seguir a orientação, nem o exemplo, quando o Sumo Pontífice defende o Vaticano II. É como se os neoprotestantes dissessem: “Bento XVI é o Vigário de Cristo na terra, é nosso guia,ma non troppo“. Em última análise, os neoprotestantes parecem confiar no Papa e no Magistério, mas só até certo ponto. Confiam desconfiando. Noutros casos, preferem seguir aquilo que eles mesmos, os neoprotestantes (ou seus “gurus”), consideram o correto.

E deve-se notar que isto não se verifica somente com relação às determinações da Santa Sé, mas também com relação ao próprio Concílio Vaticano II, que eles tacham de herético. Ora, como os modernistas, eles praticam o Livre Exame do Concílio: sempre admitem, com relação a este, não o que está efetivamente no texto conciliar, mas o que eles – baseando-se no detalhe do detalhe do detalhe – interpretam como sendo o real significado do texto. E se o Magistério da Igreja intervém e mostra o real sentido de um ou outro ponto obscuro – como o fez com relação ao “subsistit in” daConstituição Dogmática Lumen Gentium (n. 8) na Declaração Dominus Iesus, da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, ou com relação ao Ecumenismo na Nota sobre alguns aspectos da Evangelização, da mesma Congregação, ou quando o Papa mesmo esclarece um ou outro ponto em seus discursos e Encíclicas – eles rejeitam a autorizada e verdadeira interpretação do Magistério – só ele a pode dar! – e preferem sua própria interpretação, pois para eles é forçoso encontrar uma heresia no Concílio. No fim das contas, como para modernistas e protestantes, o que vale para os tradicionalistas anti-Vaticano II neoprotestantes não é a autoridade do Magistério da Igreja como real intérprete de seus ensinamentos, mas a autoridade pessoal, subjetiva, a autoridade da própria pessoa, que – por alguma revelação própria ou assistência pessoal do Espírito Santo – discerne por si só o que o Concílio realmente quis dizer: ela se basta, seu magistério pessoal é o que vale, o Concílio não deve ser entendido como a Igreja ensina e ordena entender, mas como eles, baseados em suas próprias interpretações, entendem. Exatamente como os protestantes originários faziam.

Os protestantes originários renegaram o Magistério da Igreja como intérprete das Escrituras; os neoprotestantes renegam o Magistério da Igreja como real intérprete da Tradição: afinal, se Roma perdeu a Fé, e se são eles – os neoprotestantes – que mantém incólume a verdade, eles não precisam mais de Roma; ao invés disso, é Roma que precisa deles. Segundo Dom Bernard Fellay:

Nós rezamos  para que venha o dia em que Roma dirá não somente que os frutos da Fraternidade são bons, mas mais ainda: ‘este é o caminho que nós [Roma] devemos seguir'” (Entrevista de Dom Fellay publicada pelo boletim da Fraternidade “Nouvelles chrétienté”, jun/2002, p. 15; apud loc. cit.).

Os neoprotestantes é que devem indicar a Roma o caminho a seguir, pois ela – a “Roma neo-modernista”, que perdeu a Fé e não mais sustenta a verdadeira religião católica – não sabe mais que caminho seguir – como se não houvesse a assistência do Espírito Santo a lhe indicar! Por isso os neoprotestantes não aceitam o Magistério da Igreja na interpretação da Tradição e do Concílio Vaticano II – que se insere na Tradição – e, no fim das contas, eles incorrem no erro do Livre Exame protestante.

Em outro artigo publicado no site deste Apostolado, já o denunciávamos, com base no erro condenado no nº 29 na Bula Exsurge Domine, do Papa Leão X, com a qual condenou os erros dos protestantes:

“Mas o que disse o Papa Leão X para os hereges protestantes, que ainda hoje vale para os tradicionalistas anti-Vaticano II (e também para hereges modernistas)? Simplesmente condenou sua pretensão de rejeitar a autoridade de um Concílio Ecumênico, enfraquecer esta mesma autoridade, e contradizer deliberadamente o que foi determinado num Concílio. O Papa Leão X condenou: ‘Um meio foi dado a nós para enfraquecer a autoridade de Concílios, para contradizer seus atos livremente, julgar seus decretos e corajosamente confessar tudo o que pareça verdade, seja o que for que tenha sido aprovado ou desaprovado por qualquer Concílio‘ (SS. PAPA LEÃO X, Bula Exsurge Domine, erro condenado nº 29).

Que golpe, que torpedo contra o tradicionalismo anti-Vaticano II deu o Papa Leão X ao condenar este erro do Protestantismo!

Com efeito, que poder tem o fiel de rejeitar a autoridade de um Concílio Ecumênico, sustentado pela autoridade do Sucessor de Pedro, se o Papa condenou que se queira ‘enfraquecer a autoridade de Concílios’?

Que poder tem o fiel de contradizer aberta e presunçosamente as determinações do Concílio Ecumênico aprovadas pelo Papa e promulgadas por mandato seu, constituindo-se de caráter obrigatório, se o Papa condena ‘contradizer seus atos [do Concílio Ecumênico] livremente’? Vale lembrar que o Código de Direito Canônico caracteriza como de força obrigatória os documentos conciliares aprovados e promulgados pelo Papa: ‘Os decretos do Concílio Ecumênico somente têm força obrigatória se, havendo sido aprovados pelo Romano Pontífice juntamente com os Padres conciliares, são confirmados pelo Papa e promulgados por mandato seu’ (CDC, 341, §1). Dentro do que define este artigo da legislação canônica, todos os documentos do Concílio Vaticano II, que foram aprovados pelo Papa, confirmados e promulgados por sua autoridade, têm força obrigatória, não podendo ser rejeitados pelos fiéis.

E que poder terá alguém para julgar os decretos e textos do Concílio Ecumênico, manifestando sua “opinião” (como se esta valesse algo diante do Magistério) sobre estes, forjando interpretações errôneas a respeito destes mesmos textos, se o Papa condena ‘julgar seus decretos e corajosamente confessar tudo o que pareça verdade, seja o que for que tenha sido aprovado ou desaprovado por qualquer Concílio‘? Como forjar interpretações (como fazem os modernistas) e apegar-se a interpretações errôneas, distante do que definiu o Magistério (como fazem tradicionalistas anti-Vaticano II), se o Papa condena que se confesse opiniões sobre o que parece ou não ser verdade nos textos do Concílio Ecumênico, ainda que tenha sido aprovado ou rejeitado pelo Concílio?

Onde está a coerência de tradicionalistas anti-Vaticano II que defendem a rejeição do Concílio Ecumênico Vaticano II?

Que torpedo lançou o Papa Leão X contra estes!

[…]

Vale lembrar que este erro também se enquadra entre os modernistas, que rejeitam a autoridade dos Concílios Ecumênicos e forjam interpretações absurdas sobre seus textos, completamente distante do que definiu o próprio Magistério. Vale tanto para eles, que o Papa São Pio X cita este erro na sua Encíclica Pascendi Dominici Gregis: ‘Mais ainda: [os modernistas fundados no princípio que a ciência em nada depende da fé, quando tratam de filosofia, de história, de crítica, não sentindo horror de pisar nas pegadas de Lutero (cf. Prop. 29 conden. por Leão X,Bula Exsurge Domine de 16 de maio de 1520: ‘Temos aberta a estrada para enfrentar a autoridade dos Concílios e para contradizer à vontade as suas deliberações, e julgar os seus decretos e manifestar às claras tudo o que nos parece verdade, seja embora aprovado ou condenado por qualquer Concílio’), ostentam certo desprezo das doutrinas católicas, dos Santos Padres, dos Concílios Ecumênicos, dos magistérios eclesiásticos; e se forem por isto repreendidos, queixam-se de que se lhes tolhe a liberdade’ (SS. PAPA S. PIO X, Encíclica Pascendi Dominici Gregis, O modernista crente).

Portanto, uma coisa tradicionalistas anti-Vaticano II e modernistas têm em comum: sua rejeição, seu asco, seu nojo ao Concílio Ecumênico, atitude condenada no erro nº 29 da Bula Exsurge Domine do Papa Leão X, e também pelo Papa São Pio X na sua Encíclica Pascendi Dominici Gregis.

Isto mostra o erro de se seguir alguma destas duas correntes” (SOUSA, T.F.Torpedo do Papa Leão X contra o Tradicionalismo anti-Vaticano II. Apostolado Veritatis Splendor: 2007; disponível em: http://www.veritatis.com.br/article/4547).

Não é difícil perceber como caem neste erro os Tradicionalistas anti-Vaticano II; e ao caírem neste erro, pisam nas pegadas de Lutero, caem num dos erros do Protestantismo, formalmente condenado pela Bula Exsurge Domine do Papa Leão X. Não é exagero, portanto, chamar o Tradicionalismo anti-Vaticano II de “Neoprotestantismo”, já que por tantas vezes caminham nas mesmas estradas em que um dia caminharam Lutero e todos os “Reformadores” subseqüentes. 

E aqui podemos retornar à última observação do primeiro parágrafo, para dizer que aqueles que rejeitam o Vaticano II não seriam os únicos que, dentro da Igreja, poderiam ser classificados como neoprotestantes. Todos aqueles que, sem deixarformalmente a Igreja Católica (o que seria mais coerente), insistem em desacatar as diretrizes da Santa Sé, preferindo seguir interpretações particulares (como certos carismáticos, os adeptos da teologia da libertação, os defensores da legalização do aborto, etc.), merecem ser chamados de neoprotestantes. Todavia, preferimos concentrar nossa atenção sobre aqueles indivíduos que rejeitam o Vaticano II por se tratar de um grupo que, ainda que com as melhores intenções, mostra-se talvez mais ousado em sua pretensão de rejeitar não apenas uma ou outra diretriz da Santa Sé (o que já seria condenável), mas todo um Concílio, o qual foi convocado por um Papa (João XXIII, legítimo sucessor de São Pedro, Vigário de Cristo na terra!), igualmente levado a cabo por um Papa (Paulo VI) e defendido, de forma inequívoca, por dois dos mais veneráveis Papas da história da Igreja (João Paulo II e Bento XVI).

Finalmente, em quarto lugar, chama-nos a atenção o fato de que, à semelhança dos protestantes do século XVI, os neoprotestantes parecem não considerar nem sequer admitir a possibilidade de que eles mesmos, e não os fautores e defensores do Vaticano II, é que possam estar equivocados. Em outras palavras, os protestantes originários simplesmente convenceram-se de que a interpretação que eles passaram a ter da Escritura Sagrada e da fé cristã como um todo era a correta, e que a Igreja Católica até então esteve equivocada, não ocorrendo a tais protestantes a hipótese de que eles mesmos poderiam estar errados e que as críticas que então passaram a fazer ao catolicismo pudessem ser derivadas de uma interpretação errada da Bíblia e da fé cristã de sempre. Semelhantemente, parece não ocorrer aos neoprotestantes a possibilidade de que, na verdade, é a interpretação que eles fazem do Vaticano II que está equivocada. Simplesmente partem do pressuposto de que o Vaticano II foi um desacerto, e não há nada nem ninguém (nem mesmo cinco Papas!) que os convença do contrário. E por isso mesmo, também à semelhança dos seus antecessores, os neoprotestantes recusam-se a buscar junto ao Papa e ao Magistério a interpretação correta, preferindo seguir a interpretação que lhes parece ser a verdadeira, como já demonstramos.

Esperamos que este modesto artigo não seja recebido pelos que designamos como neoprotestantes como uma provocação, nem como uma “declaração de guerra” ou coisa que o valha. Em vez de uma demonstração de desrespeito, o presente ensaio é um convite à reflexão, e um apelo para que os neoprotestantes revejam seu posicionamento, e assim possam empenhar-se no verdadeiro combate em defesa da una e santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Como complemento, recomendamos a leitura dos artigos abaixo:

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